Tomás de Aquino: vida, filosofia e suas obras

Tomás de Aquino

Biografia de Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino nasceu em Roccasecca entre os anos de 1224 e 1225. Aos 15 anos, estudou na Universidade de Nápoles, fundada por Frederico II, onde teve contato com a filosofia de Aristóteles e com a filosofia árabe, sobretudo a filosofia de Avicena (980 – 1037).

Tornou-se frade da ordem dos dominicanos em 1244, ainda em Nápoles, mesmo contra a vontade de sua família. E em 1245, iniciou seus estudos na faculdade de Teologia em Paris, tendo como mestre Alberto Magno.

Em 1248, Tomás acompanha seu mestre, encarregado de dirigir o novo studium generale estabelecido pela Ordem Dominica em Colônia, onde também, no final de sua estadia, escreveu seu primeiro texto teológico: Comentário sobre Isaías.

De 1252 a 1256, Tomás de Aquino exerce sua docência na qualidade de bacharel sentenciário na Universidade de Paris, onde escreve obras de relevância como o De Veritate, os Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo e o opúsculo O ente e a essência (De ente et essentia).

Terminando sua docência em Paris, retorna à Itália (1259-1267), período esse bastante fecundo. Os comentários à Física, à Metafísica e à Ética de Aristóteles; Catena Aurea, as Quaestiones De Anima, o Tractatus contra errores Graecorum e a Suma contra os Gentios são deste período.

Tomás retorna a Paris em 1269, encontrando uma cidade bastante agitada, religiosa e intelectualmente, pelas disputas doutrinais acerca do pensamento de Aristóteles. Em contraste com a pacífica estadia na Itália, cuja produção literária visava mais o ataque aos erros de filósofos do passado, em Paris Tomás se coloca em oposição direta aos pensadores de sua época, como Guilherme de Saint-Amour e Siger de Brabante. Contra este último, Tomás escreveu o seu tratado De unitate intellectus contra Averroistas.

Além desses embates no campo filosófico, Tomás entra em defesa da vida religiosa medicante contra os mestres seculares. Diante dessas perseguições às ordens medicantes da qual era membro, Tomás retorna à Nápoles onde passa a ensinar.

Em 1274 é convocado pelo Papa Gregório X para o concilio geral de Lyon; porém, adoece no meio da viagem e acaba falecendo aos 49 anos. Foi canonizado em 18 de julho de 1323 pelo papa João XXII. Em 15 de abril de 1567 é declarado Doutor da Igreja por Pio V.

A filosofia de Tomás de Aquino

O grande desafio filosófico de Tomás de Aquino foi conciliar a filosofia de Aristóteles com o pensamento cristão, ou seja, fé e razão.

A metafísica de Aristóteles serviu de apoio para as suas grandes teses e argumentos como, por exemplo, as 5 vias que provam a existência de Deus. Mas o que é metafísica de Aristóteles?

Para Aristóteles, a “Filosofia Primeira”, chamada posteriormente de Metafísica por Andrônico de Rodes, possui diversas definições:

  • ciência mais elevada, superior a qualquer outra;
  • ciência das primeiras causas e dos primeiros princípios;
  • ciência do ser enquanto ser, isto é, do ser abstraído de toda e qualquer materialidade e individualidade.

A investigação metafísica levou Aristóteles ao estudo de uma variedade de conceitos e princípios inerentes ao próprio ser, como: substância, acidente, essência, matéria, forma, etc. Todos estes, conceitos originalmente aristotélicos, integram o sistema filosófico e teológico de Aquino.

No ocidente medieval as obras de Lógica e Retórica de Aristóteles eram as mais conhecidas. A partir do século XIII, há um florescimento filosófico-científico devido há vários fatores como, por exemplo, a criação das universidades e o contato com obras filosóficas desconhecidas até aquele momento. É nesse contexto que, por meio dos árabes, outras importantes obras do Estagirita, como a Física e Metafísica, chegam aos filósofos medievais ocidentais.

Tomás é fortemente influenciado pela filosofia de Aristóteles, e em grande parte pelo pensamento de Avicena, se valendo dela em suas principais teses metafísicas. Entretanto, Tomás não se limita a ser um mero repetidor ou comentador de Aristóteles, por meio da metafísica aristotélica, constrói a sua própria. Sobre isto, diz Hugon:

“Não se pode deixar de reconhecer que S. Tomás seguiu as trilhas de Aristóteles, mas ele reformulou de tal modo os ensinamentos do Estagirita, que arquitetou uma outra filosofia” (HUGON, 1998, p. 12).

O pensamento filosófico de Aquino se mostra dominado por sua teoria ontológica, por isso se diz comumente que ele elaborou uma filosofia do real e do ser.

A distinção entre ente e essência

Uma das teses mais importantes elaboras por Aquino é a distinção entre ente e essência. Para ele, existem entes (seres) que não possuem a existência como essência, isto é, entes que podem ou não existir, por exemplo, uma mesa, cadeira, um ser humano, etc. Estes entes são chamados contingentes.

Por outro lado, há um ente cuja essência é existir, ou seja, este ente existe necessariamente. Tomás denomina este ente como esse per se subsistens (ente subsistente por si), em outras palavras, Deus.

Teologia e filosofia

Em Tomás, teologia e filosofia não são oposta, mas complementares. No entanto, a teologia exerce um papel superior, e a filosofia é considerada sua serva.

A filosofia é entendida como preambulum fidei (preambulo da fé), isto é, uma disciplina introdutória que dá sustento racional à fé cristã. Questões como a existência de Deus eram consideradas possíveis de serem provadas pela razão, e não precisava apenas da fé para acreditar na sua existência. Tomás afirma:

Há verdades que superam todo poder da razão humana, como, por exemplo, a verdade de que Deus é uno e trino. Outras verdades podem ser pensadas pela razão natural, como as verdades de que Deus existe, de que Deus é uno, e outras mais.

No fim das contas, o que os filósofos escolásticos queriam era demonstrar que a fé cristã não era algo irracional, absurda.

Mesmo considerando a teologia superior, Tomás não defendia que ela poderia substituir a filosofia.

A analogia do ser

Tudo que existe é denominado ente. No entanto, os entes não existem de modo idêntico, por exemplo, Deus e o mundo material existem de modos diferentes.

Dizemos que o mundo existe, portanto, de modo análogo: o mundo tem ser, e Deus é o próprio ser.

Obras

Aquino escreveu diversas obras filosóficas e religiosas, dentre as quais podemos citar:

Sumas

  • Suma teológica
  • Suma contra os Gentios

Obras e opúsculos filosóficos

  • De ente et essentia (Sobre o ente e a essência)
  • De principiis naturae (Sobre os princípios da natureza)
  • De aeternitate mundi (Sobre a eternidade do mundo)
  • De unitate intellectus contra averroistas (Da unidade do intelecto contra os averroistas)

Comentários bíblicos

  • Expositio super Isaiam ad litteram (Comentário Literal sobre Isaías)
  • Postilla super Ieremiam (Comentário sobre Jeremias)
  • Postilla super Threnos (Comentário sobre as Lamentações)
  • Comentários às sentenças de Pedro Lombardo
  • Comentário ao De Trinitate de Boécio
  • Comentário ao De divinis nominibus de Pseudo-Dionísio

Questões Disputadas

  • Quaestiones disputatae de veritate (Questões disputadas sobre a verdade)
  • Quaestiones disputatae de potentia (Questões disputadas sobre a potência)

Influências

Tomás foi bastante influenciado pelos filosofos gregos, medievais e árabes, bem como os grandes teólogos latinos:

  • Santo Agostinho
  • Platão
  • Aristóteles
  • Alberto Magno
  • Avicena
  • Averróis
  • Anselmo de Cantuária
  • Boécio

Referências

GARDEIL, Henri-Dominique. Iniciação à filosofia de São Tomás de Aquino. Tradução de Cristiane Negreiros Abbud Ayoub e Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Paulus, 2013.

GILSON, Étienne. A existência na filosofia de S. Tomás. Trad. de Geraldo. Pinheiro Machado; Gilda Mellilo; Yolanda Balcão. São Paulo: Duas Cidades, 1962.

HUGON, Édouard. Os princípios da filosofia de São Tomás de Aquino. Tradução de D. Odilão Moura O. S. B. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.

TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino: sua pessoa e obra. Tradução de Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2004.

WIPPEL, J. F. The Metaphysical Thought of Thomas Aquinas. From Finite Being to Uncreated Being, Washington D.C., The Catholic University of America Press, 2000.

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